1) Como foi seu processo de estudos para ingresso na Polícia Civil? 

Eu estudei durante cinco anos para o concurso específico de Delegado de Polícia. Durante esses anos todos eu passei por pequenas derrotas, que foram as reprovações nos concursos para Delegado de Polícia em vários Estados, dentre eles os concursos de 2006 e 2008 no Estado de São Paulo.

Além de São Paulo, também consegui a aprovação no concurso da Polícia Civil de Minas Gerais. 

Eu encarava o estudo como uma rotina de trabalho. Optei por descansar aos sábados, domingos e feriados, quando eu desfrutava das minhas horas de lazer, viagens, esportes e reuniões com amigos. Essa foi a forma que eu encontrei para conseguir seguir uma rotina de estudos e conquistar o meu sonho. 

Eu tinha plena consciência de que seriam necessárias muita determinação e resiliência e, por isso fortaleci o meu psicológico e optei por não ficar submersa 24 horas nos estudos, como eu vejo vários candidatos para concursos públicos fazendo. Fiz cursos preparatórios, formei os meus cadernos e optei por estudar fora de casa em cabines de estudos de cursos preparatórios diversos, até o momento em que fui aprovada.

2) Vivemos ainda em um mundo de preconceitos e machismo em muitas áreas e segmentos da sociedade, no seu caso, como foi seu processo de escolha/decisão para entrar na Polícia Civil?

Sim, vivemos em uma sociedade predominantemente patriarcal e machista, infelizmente. 

Estamos no ano de 2020, mas vemos nuances salpicadas na sociedade em atitudes. 

Particularmente, acredito que as profissões não têm gênero e sexo, e devemos nos pautar por aptidões. Quando escolhemos uma profissão, temos que nos pautar naquela que consideramos ter a maior afinidade.

Antes de me tornar Delegada de Polícia, nunca tinha trabalhado na área policial, fui advogada durante onze anos, mas eu sabia de antemão que era a carreira que fazia os meus olhos brilharem e que eu sonhava em exercer.

3) Na sua opinião, o estudo com organização é um passo primordial para quem ser aprovado no concurso público com mais agilidade e rapidez? 

Eu considero essencial para que o caminho seja encurtado que o candidato tenha método e direcionamento para os estudos. Muitas vezes, o concurseiro estuda matérias que não são aquelas que são exigidas no concurso que ele deseja ser aprovado ou, mesmo que sejam, talvez não sejam cobradas naquela fase específica. Então é essencial que tenhamos um direcionamento, um método para que esse caminho seja percorrido de forma mais eficaz e rápido até aquele objetivo que é a aprovação no concurso público.

4) Quais foram os maiores desafios durante sua trajetória de estudos?

Os maiores desafios foram realmente aqueles desafios internos. Quando paramos e não conseguimos palpar resultados, afinal passamos por várias reprovações até a tão sonhada aprovação. Nos questionamos se realmente estamos seguindo o caminho certo, se realmente devemos persistir neste sonho e se temos capacidade para atingir nosso objetivo. 

Acredito que esses pensamentos internos foram o meu principal obstáculo, pois eu sentia que eles faziam com que eu desviasse o meu foco e objetivo.

Sempre tive a determinação e a certeza de que eu seria aprovada no concurso para Delegado de Polícia, não importava o tempo que fosse necessário, mas algumas vezes me questionei durante a jornada, que é árdua e requer muita resiliência e muita força de vontade.

5) Você ainda presencia algum tipo de preconceito (com as mulheres na Polícia Civil) ao seu redor, de maneira geral? 

Trabalhando como Delegada de Polícia na atividade fim, presidindo inquéritos, equipes em plantões de polícia judiciária eu não presenciei o machismo. Porém, a partir do momento em que assumi o cargo de Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, e me propus a representar os pares da melhor forma que fosse, passei a presenciar muitos questionamentos e tentativas de menosprezar, diminuir ou até mesmo anular os meus posicionamentos pelos próprios pares. Óbvio que alguns homens repudiam esse tipo de gaslighting e manterrupting. Explicando, o manterrupting é a tentativa de menosprezar a mulher, as suas ideias e opiniões, ou seja, tentar cala-la ou até mesmo, trata-la como alguém que não tivesse intelecto suficiente, que é o mansplaining

Infelizmente presenciei isso em algumas reuniões em que ouvia frases como “venha compor essa mesa para embelezar a mesa”. A mulher não compõe mesa profissionalmente para embelezar, e isso sem fazer o juízo de valor se ela tem ou não beleza, mas sim pela profissão que ela exerce, pelos seus conhecimentos técnicos, doutrinários e práticos. Então, realmente, no percorrer da carreira, principalmente exercendo a função de Presidente do Sindicato, eu percebo de alguns pares ainda possuem esse preconceito machista.

6) O que te motiva todos os dias na sua rotina de trabalho?

O que me motiva todos os dias é saber que estamos buscando a dignidade da polícia judiciária, o resgate da dignidade da polícia judiciária, o fortalecimento de nossas prerrogativas, o reconhecimento de um salário digno, o fortalecimento e a respeitabilidade da nossa carreira como um todo. Porque presenciamos várias tentativas de aniquilar as nossas prerrogativas ou pior, que a nossa carreira seja realmente extinta. Então, o principal objetivo é realmente fortalecer e resgatar a dignidade da polícia judiciária.

7) Ser Delegada, presidente do SINDESP e ainda com todos os afazeres do cotidiano, como é lidar com tudo isso ao mesmo tempo?

Quando a gente escolhe, pode até ser um jargão muito comum e corriqueiro, algo muito falado, mas quando você escolhe algo que é apaixonado, que ama a ponto de exercer como profissão, você nunca terá que trabalhar na sua vida, porque até nas suas horas de lazer e de descanso, quando se está com os seus amigos e colegas de profissão, você se flagra pensando, trabalhando e até mesmo falando sobre casos, investigações, ou até mesmo o que ocorre no seu dia a dia. Então, quando você é apaixonado pelo que faz, não percebe que está trabalhando.

8) Qual recado você deixaria para as mulheres que desejam ingressar na carreira policial?

O meu conselho, o meu recado para as mulheres que querem ingressar nas carreiras policiais é que, repetindo o que eu já falei anteriormente, a profissão não tem sexo, não tem gênero, ela deve ser seguida de acordo com a aptidão. E busque o seu objetivo, o seu sonho e afinal, quem pode determinar o que seremos e o que exerceremos profissionalmente, somos nós mesmos. Afinal, nós somos os protagonistas de nossas próprias vidas!