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Tiro de precisão e a exposição midiática

Em 20/08/2019, um ônibus foi sequestrado no Rio de Janeiro sendo que mais de trinta pessoas foram mantidas como reféns pelo sequestrador.

Verificou-se, posteriormente, que o agente não tinha antecedentes criminais e que se encontrava com problemas de ordem psicológica. Não obstante, ele adentrou no ônibus portando uma arma – que apenas ao final da ação pode se constatar que era de brinquedo -, e garrafas pet contendo gasolina, ameaçando colocar fogo no ônibus.

Esse rapaz, ao adentrar o ônibus e fazer as vítimas reféns sob constante ameaça, cometeu, nesse momento, diversas condutas criminosas.

O desfecho da ação: um tiro de precisão. O agente estava cometendo um crime e a polícia tinha, como dever, agir em legítima defesa própria e de terceiro. A ação da polícia foi acompanhada por psicólogos que recomendaram o tiro de precisão em razão da periculosidade do agente e da gravidade da conduta por ele praticada.

A família do rapaz anuiu com o desfecho policial afirmando que não poderia, no caso concreto, ter havido outra solução e ainda se desculpou perante as vítimas do ocorrido.

No entanto, o que de fato chama a atenção, e é o tema central desse texto, é a motivação do agente. Por mais de uma vez ele afirmou que entraria para a história. Esse era o objetivo.

Trata-se de intuito muito comum e tantos outros criminosos cometem crimes dessa magnitude com esse único objetivo: “ficarem famosos e entrar para a história”.

Discute-se, portanto, até que ponto a exposição midiática de referidos crimes contribui para que esse objetivo seja, de fato, alcançado, enaltecendo o criminoso e o crime por ele cometido e incentivando, por via de consequência, outros que compartilham dos mesmos ideais.

Trata-se de um fenômeno criminológico extremamente comum, decorrente da psicologia criminal, denominado “mimetismo”, que se procura evitar, com a regulação da reprodução de notícias sobre tais fatos pela mídia.

Não se olvide que em um Estado Democrático de Direito a publicidade é a regra e aqui não se está a defender a restrição à liberdade de imprensa ou que o fato deixe de ser noticiado. Questiona-se, porém, a forma como essa publicidade é feita e no resultado por ela obtido, o alcance da promoção do criminoso com a consequente modulação da conduta por outros que comungam do mesmo ideal, fenômeno denominado de “copycat effect” pelos estudiosos.

Os estudos defendem que a veiculação desse tipo de ação deve se dar de forma mitigada, com enfoque na vítimas e não com ênfase nas ações do criminoso. Assim, não se deve divulgar seu nome, modo de execução e número de vítimas, por exemplo, justamente para não fomentar ou criar na mente de outro criminoso a vontade de praticar crime semelhante ou quiçá superar o feito anterior.

Essa linha de raciocínio é defendida pelos estudiosos nos recentes massacres ocorridos em escolas que, infelizmente, estão se tornando quase comuns no Brasil. Eles aduzem que a ampla divulgação apenas acarreta a reprodução de mais massacres, a curto ou longo prazo: “Segundo o psicólogo Peter Langman, um dos maiores especialistas do país no assunto, um dos fatores pode ser o que ele chama de “efeito imitação” ou “efeito de contágio”, em que atiradores buscam alcançar a mesma “fama” de massacres anteriores. “Alguns desses ataques ganham tanta atenção da mídia que isso acaba se tornando muito desejável para outras pessoas, e elas podem acabar tentando seguir os passos desses autores”, disse Langman em entrevista à BBC Brasil.”¹

É de se ponderar, a exemplo do que ocorre com os suicídios, que não são divulgados justamente para não plantar a ideia ou incentivar as demais pessoas com propensão ao suicídio a cometerem referido ato  – recomendação dada pela OMS – Organização Mundial da saúde -, se o mesmo não deveria se dar em relação a esses atos midiáticos de pessoas que praticam crimes com o fim único de ficarem famosas e fazer história. Pois muito do que se vê são criminosos ou pessoas perturbadas cometendo atos que foram modulados por outros atos anteriores.

E do fenômeno ainda se depreende que a polícia, ao término da ação, desponta como vilã para parcela da população, que não compreende a necessidade da medida incisiva de exterminar o criminoso ou pessoa que estava em estado de periculosidade, já que em algumas situações extremas a morte do criminoso é a única maneira de fazer cessar a conduta criminosa.

Não se comemora essa morte, pelo contrário, lamenta-se. Porém, para os críticos, não se reconhece o sucesso da operação ou o resgate dos reféns. Apenas aponta-se a morte daquele indivíduo claramente perturbado, almejando colocar em risco a vida de mais de trinta pessoas somente para satisfazer seu ego.

A morte do agente é uma situação extrema e último recurso quando nada mais pode ser feito para salvar a vida das vítimas, assim, em um cotejo entre a integridade física ou a vida do criminoso e a das demais pessoas inocentes, é realizada uma ponderação de valores e princípios, onde a vida daquele que naquele momento ameaça ceifar a vida de pessoas inocentes não pode se sobrepujar a das vítimas, se outra solução não se mostrar possível no caso concreto.

Referências:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43092981

https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/copycat-effect-a-tragedia-de-suzano-pode-inspirar-outras-pessoas-a-fazer-o-mesmo/

https://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/en/suicideprev_media_port.pdf

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